“ Basta de tanto acidente, de tanta morte no trabalho”: terceira edição do Ato e Canto Pela Vida faz memória às vítimas de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho
Homenagem fez parte do programa Todo Mundo tem que Falar, Cantar e Comer, do Coletivo Associação de Amigos da Praça Memorial Vladimir Herzog.
Por: Leonardo Guimarães
Alguns sindicatos, representantes da classe trabalhadora, estiveram presentes neste domingo, 26, na Praça Vladimir Herzog, na Bela Vista, em São Paulo, para a 3° edição do Ato e Canto pela vida, evento que comemora e faz lembranças ao Dia Internacional em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças Relacionadas ao Trabalho, comemorado no dia 28 de abril. A homenagem é realizada na Praça desde 2024.
A realização do ato foi uma atividade integrada no encontro que acontece em todo último domingo do mês, o “Todo Mundo tem que Falar, Cantar e Comer”, que é coordenado pelo Coletivo Associação de Amigos da Praça Memorial Vladimir Herzog.
As pessoas com coletes amarelos, que sacudiam as bandeiras vermelhas com branca na ponte que liga o Anhangabaú com o terminal bandeira e da passagem para a praça Vladimir Herzog, já sinalizavam o que aconteceria em poucas horas depois naquela praça localizada de frente ao Terminal Bandeira.
CTB, Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, era a sigla que estampava as bandeiras e os coletes de cerca de 20 pessoas que vinham em direção à praça, que faz memória ao ex-jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado em 1975, nas dependências do DOI-CODI, na ditadura militar.
A Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), foi apenas um dos sindicatos presentes no local, o Instituto Vladimir Herzog, a Banca Livraria dos Jornalistas Vladimir Herzog, a Central dos Sindicatos Brasileiros - CSB e mais 70 instituições e sindicatos também marcaram presença e ajudaram a organizar a 3° edição do Ato.
O encontro, que traz o nome, “Todo Mundo tem que falar, cantar e comer” não é por menos, a tradição da caipirinha, distribuída gratuitamente para todos na praça, foi acompanhada de um delicioso pão com carne maluca. Além da música, que ficou por conta de Paulinho Timor, sambista paulistano, que acompanhado de Edu Batata, Helinho e Mumu de Oliveira, relembraram clássicos do samba e agitaram o evento.
Para o jornalista e artista plástico,identificado apenas como Hélio, o evento cumpre com um dos ideais da praça: a luta e a memória de quem já se foi.
“ Ela (a praça) se tornou aquilo que sempre queríamos que ela fosse, um centro cultural.” Disse Hélio, uma das primeiras pessoas a conceber a praça Vladimir Herzog como uma praça memorial.
Para além da memória, esses eventos na praça Vladimir Herzog trazem a arte para dentro do local, e “ Uma praça se tornar um centro cultural em São Paulo tem lá a sua importância.” Como diz Hélio.
Cumprir com os ideais da praça, essa também é a opinião de Ana Luísa Gomes, jornalista e uma das diretoras da Oboré, que gerência a praça Vladimir Herzog.
Para a jornalista, e também pesquisadora, o evento legítima a importância do espaço e dialoga com o significado da luta coletiva.
“ Quando chega um grupo organizado, de sindicatos, querendo fazer um ato tão simbólico como esse dentro da praça, legítima que é um espaço público para todos, para todas as discussões da sociedade, para todas as lutas que a sociedade enfrenta e precisa enfrentar.” Diz a jornalista.
Ana Luisa Gomes, ainda compartilha que o evento, que acontece mensalmente a 4 anos, fortalece a luta de sindicatos contra acidentes no trabalho, um problema recorrente e que dura a anos.
“ O principal ponto de hoje foi essa conscientização, esse grito uníssono: basta de tanto acidente, de tanta morte no trabalho.” complementa, Ana, que além de professora e jornalista, faz parte, desde 2012, da curadoria do prêmio jornalístico Vladimir Herzog de anistia e Direitos Humanos e do prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, que é gerenciado pelo Instituto Vladimir Herzog desde a sua fundação, em 2009.
Problema antigo, realidade atual !
O acidente de trabalho é um problema que afeta a sociedade há muitos anos, mas esse problema ainda é uma realidade no país, e parece está longe acabar.
Segundo o Ministério do Trabalho, em 2024 o Brasil registrou 724.228 acidentes relacionados ao trabalho, sendo 73,3% de acidentes atípicos. 24%, desse total, são relacionados a acidentes de trajeto e apenas 1% relacionados a doenças.
O tempo de recuperação do trabalhador, também é um debate antigo, que, ainda, é mais atual do que nunca.
Nessa mesma pesquisa,do Ministério do Trabalho, a questão do afastamento é outro dado que ilustra bem a realidade. Em dias afastados, por acidentes de trabalho, apenas 11,91% tiveram um afastamento do serviço superior a 15 dias, enquanto 61,07% foram afastados no máximo de tempo dessa quantidade de dias. Até 15 dias de afastamento, a empresa é responsável pelo pagamento do salário do trabalhador que está afastado, 16° dia, o pagamento não se torna obrigatório. 01% não tiveram afastamento dos serviços, mesmo sofrendo acidentes durante o serviço.
“ eu trabalho nessa área há 74 anos, desde que eu me formei em 1971 a prevenção dos acidentes, das mortes e das doenças do trabalho é uma das nossas grandes bandeiras.” Diz, Rene Mendes, médico e pesquisador, que é um dos coordenadores do observatório do trabalho e da classe trabalhadora da USP.
A data de 28 de abril é simbólica e todos os eventos que giram em volta dela são muito emblemáticos e importantes para a memória de quem já se foi, por conta de acidentes relacionados ao trabalho. Para o pesquisador e professor aposentado de 80 anos, Rene Mendes, os acidentes não são obra do acaso e podem ser reduzidos.
“ É o que a gente chama de evitabilidade, ou seja, é possível evitar.” Complementa
Para além de reduzidos, Rene entende que uma das causas de acidentes no trabalho, gira em torno da intensidade que é cobrada do trabalhador. Para o médico, uma das soluções para amenizar e evitar acidentes no trabalho seria a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6x1, que impõe ao trabalhador 6 dias de serviço na semana, tendo apenas um dia para descansar, normalmente aos domingos.
“ essa intensificação do trabalho está na raiz do adoecimento e das mortes ( relacionadas ao trabalho ).” Completa o médico e pesquisador da Universidade de São Paulo, a USP.
Segundo uma pesquisa do Infoseg-SP, o Sistema de Informações Gerenciais de Sinistros de Trânsito, São Paulo registra 1.034 mortes de trânsito, do total, 37% são causadas por acidentes de motociclistas.
“ Os motofretistas estão sob regime de cobrança, de urgência, mal pagos e cobrado por tempo impossível.” Afirma o médico.