Pular para o conteúdo principal

"Dei a cara, coloquei o peito e fui pra cima"

De espetinho a ponto de encontro, o bar mais familiar de Perus

Por: Leonardo Guimarães 



                   Maicon Oliveira/Mundo em Manchetes 


O relógio marcava duas horas da tarde e, debaixo de um sol escaldante de uma tarde de sábado, Carol nos recebeu em uma grande praça pública.

"Vamos lá pra dentro, aqui tá muito quente", disse ela, enquanto caminhava na direção de um bar, do seu bar, o "Bar da Carol".

"Além de só ser mulher (dona de um bar), eu sou mãe, sou esposa, mãe de três filhos. A gente vê que é muita diferença, né? A gente demora muito mais para conquistar as coisas. Você vê os caras muito mais avançados, bem mais à frente, bem mais acima, e a gente tá, literalmente, debaixo, aos pouquinhos, com os filhos no colo e conquistando as coisas devagar, passo a passo, bem devagar."

Quem disse isso foi Ana Caroline de Oliveira dos Santos, paulistana de 31 anos, que viu no desemprego e na falta de oportunidade do mercado de trabalho a sua chance de meter as caras e virar dona do seu próprio negócio. "Dei a cara, coloquei o peito e fui pra cima", resume ela.

O bar da Rua Júlio Maciel, 514, na Vila Perus, zona noroeste de São Paulo, fica localizado em uma praça que recebe centenas de pessoas em dias de jogos de futebol importantes, isso graças a um grande telão que é colocado na praça. O Bar da Carol, então, deixa de ser um espaço de encontros e se torna uma verdadeira arquibancada em praça pública.
"É surreal, é surreal (o clima do bar em dia de jogo). Quando tem jogo as pessoas ficam eufóricas. Muita muvuca, do jeito que a comunidade gosta", relata uma de suas clientes.

O espaço é grande: cadeiras e mesas para o lado de fora. Em dia de chuva, uma grande lona protege seus clientes fiéis. Narguilé, bebidas e salgadinhos dão o clima perfeito para dias ensolarados ou chuvosos. O bar que carrega o seu nome é atração para os fins de semana e bastante conhecido na região da zona noroeste. - como diz a frase que estampa a parte de trás da camisa de Carol “Em São Paulo não dizemos eu te amo, dizemos vamos ao Bar da Carol, é a mesma coisa” 

                 Maicon Oliveira/Mundo em Manchetes 


A jovem Thassila Beatriz adora o ambiente familiar que o Bar da Carol tem e garante: gosta do bar desde a primeira vez que foi ao local.

"O ambiente do Bar da Carol é acolhedor, um ambiente onde a gente se sente à vontade. Fora os profissionais que nos atendem sempre de uma forma acolhedora e aconchegante. Desde a primeira vez que eu vim, a recepção sempre foi boa."

O Bar da Carol vai muito além de ser apenas um bar. Como está localizado em uma região periférica, muitos dos trabalhadores passam por lá. É o momento de lazer de quem enfrenta a jornada dura do transporte público diariamente.

"O Bar da Carol faz com que as pessoas tenham lazer. O bar faz com que as pessoas tenham afinidades, outras comunicações. É um lugar onde as pessoas se reúnem para poder se divertir." Completa Thassila.

Como tudo começou

O ponto de partida foi no final da pandemia. O bar ganhou corpo e vida. Com todos querendo sair e rever amigos após quase dois anos de quarentena, o Bar da Carol foi se popularizando na região, virando ponto de encontro. Hoje o bar conta com uma bagatela de mais ou menos 150 clientes.

"Pós-pandemia, o pessoal ainda estava com bastante medo de sair, porém foi uma fase boa. Como o pessoal ficou bastante tempo dentro de casa, o pessoal extravasou. Pra gente foi a virada de chave", disse a Carol sobre o início do bar.

Carol ainda nos conta que, no início, para atrair a clientela, montou uma barraquinha de churrasco na porta do seu bar. Com o apoio da família e de amigos, pouco a pouco foi se concretizando uma clientela iniciada por amigos e familiares.

"A barraquinha era a ideia para complementar o bar. Já tinha o barzinho pequeno e a ideia da barraquinha foi trazer clientela. Começar com churrasquinho, aí vendia um espeto. Era bem familiar. É familiar!"

A ideia do espetinho veio de casa. Sua mãe, Ieda Maria de Oliveira, de 52 anos, já trabalhava com espetinhos, então a ideia inicial era ter um lugar para vender os seus espetinhos, mas os planos acabaram sendo maiores. O Bar da Carol foi se popularizando pelo bairro da zona noroeste de São Paulo. Amigos foram virando clientes, clientes foram virando família e o bar, virando o ponto de encontro da Vila Perus.

"Um lugar acolhedor e bem familiar. Para gostar de um lugar a gente precisa se sentir em casa", disse uma de suas clientes.

"O bar veio mais, assim, de família. Minha mãe sempre foi desenrolada, vamos dizer assim. Ela vendia espetinho aqui perto da entrada e a ideia era vender espetinho, não foi nem, em si, o bar. Precisava de um ponto para vender churrasquinho. E aí foi se aprimorando, foi crescendo e hoje tá, graças a Deus, bem melhor."

Segundo levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de São Paulo (ABRASEL-SP), feito no ano passado, os bairros que mais contêm bares, restaurantes e similares ficam localizados em regiões periféricas.

As dez regiões com a maior presença desse tipo de comércio são: 

Grajaú (2.684), Brasilândia (1.764), Capão Redondo (1.669), Pirituba (1.628), Cidade Dutra (1.618), Jaraguá (1.492), Jardim Ângela (1.487), Tremembé (1.441), Itaquera (1.359) e Campo Limpo (1.342).


                 Maicon Oliveira/Mundo em Manchetes 


Carol: empreendedorismo feminino através da necessidade

Segundo pesquisa da SumUp, realizada em fevereiro de 2024, 35% das mulheres empreendem por necessidade, enquanto apenas 28% dos homens viram empresários pelos mesmos motivos. - Carol faz parte desses 35%.

"O ramo do empreendedorismo veio da necessidade, né? Do desespero, de não estar achando emprego, não ser contratada. O mercado estava muito difícil na época, aí veio a ideia de ter um churrasquinho, um espetinho. Aí foi melhorando... A ideia era um botequinho, agora estamos aí com uma bagatela de uns 150 clientes."

Essa necessidade que a Carol cita veio por conta da falta de emprego da época. Antes do bar, Carol atuava em áreas diferentes, fazendo de tudo e mais um pouco: RH, Administração e até em creche ela já trabalhou - e tudo isso sem diploma, pois, dos três cursos que fez, nenhum conseguiu concluir.

"Fiz Administração, RH e Pedagogia, e não sou formada em nenhuma delas (risos). Em todas eu parei antes de acabar: RH faltando 1 ano, Administração fiz 2 anos e Pedagogia faltando 1 ano também. Nenhuma eu concluí. Mas eu sinto que nasci pro negócio aqui do bar, acho que nada deu certo porque o bar, o empreendedorismo, já estavam querendo fluir, por isso."

Com as três faculdades não concluídas e, claro, o desemprego, sua solução foi vender espetinho e, consequentemente, abrir o bar para se tornar empresária, - um serviço que ela diz estar gostando.

"Antes do bar eu trabalhava em uma creche, foi o emprego que eu mais gostei. Fiz Administração, RH, aí fui pra uma área totalmente diferente, né? É como eu falei pra vocês: o bar veio da necessidade, do desemprego, de não arrumar serviço logo após a pandemia. Na pandemia eu fiquei desempregada. Aí vim para uma área totalmente diferente, totalmente nova, mas estou aprendendo cada dia mais e estou gostando."

Segundo pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), de junho de 2024, 29,1% das mulheres que empreendem possuem ensino superior completo, e 41,3% possuem o ensino médio completo. Em outra pesquisa, aquela da SumUp de fevereiro de 2024, 56% das empreendedoras chegaram ao ensino superior, concluindo ou não o seu curso, muito mais que os homens que empreendem, que chegam a 43%.

Os desafios do trabalho

Estar dentro de um ambiente majoritariamente masculino requer muito jogo de cintura. Preconceitos, importunação e até assédios precisam, ainda, ser enfrentados, e Carol sabe bem como lidar com esse tipo de situação.

"O que mais acontece é cara vindo afrontar a gente, mas é como eu falo: eu nasci e cresci aqui, então a gente sempre colocou a cara pra bater, sempre foi pra cima. Então a gente já corta as pessoas na hora. Graças a Deus estou conseguindo lidar com isso."

Maria Eduarda trabalha há pelo menos quatro anos no Bar da Carol. O convite surgiu de uma forma aleatória. Carol e Maria Eduarda já se conheciam por conta do antigo emprego da jovem, que era na mesma praça onde fica o bar, mas foi em um dia descontraído que o convite surgiu.

"A gente estava em uma piscina, quando a Carol disse que estava sem funcionário. Aí falei: vou fazer um teste, se der certo, eu fico. Acabou dando certo e eu fiquei com ela."

Hoje, Maria Eduarda é gerente no Bar da Carol. A baiana de 24 anos sabe do desafio que é encarar esse tipo de situação e tem a resposta para esses assédios na ponta da língua.

"Às vezes o cara acha que só porque a gente trabalha em um bar, é educada, é simpática, tratou bem, acha que tem a liberdade de dar em cima, né? Mas é aquilo: sempre cortando. É respeito pra ser respeitado!"


                 Maicon Oliveira/Mundo em Manchetes 


Lucas, de 17 anos, é funcionário recente da Carol. Ele veio do Maranhão no ano passado. Através da mãe de uma amiga, começou a trabalhar no bar. O jovem já teve experiências de homens como chefe, mas garante: pra ele, chefe é chefe.

"Eu não sinto diferença nisso, não. Chefe, pra mim, eu respeito como chefe. Não importa se é homem ou se é mulher",disse o jovem.


              Maicon Oliveira/Mundo em Manchetes 


No dia 1º de setembro deste ano, o protocolo “Não se Cale”, do Governo do Estado de São Paulo, completou dois anos. Segundo a Secretaria de Comunicação do Governo de São Paulo, a Lei nº 17.621/2023 e os Decretos nº 67.856 e 68.477 determinam que bares, restaurantes, casas noturnas e de eventos capacitem seus funcionários para acolher e agir de forma segura diante de casos de assédio, violência ou importunação sexual.

O protocolo “ Não se Cale “ já alcançou mais de 105 mil inscritos e já formou mais de 60 mil pessoas com seu curso online e gratuito, segundo o portal SP.GOV.BR. 

O protocolo é uma marca positiva no movimento São Paulo por Todas. O protocolo é uma forma de segurança para as mulheres em ambientes como bares e restaurantes e a intenção da Secretaria de Políticas para Mulheres da Prefeitura de São Paulo é expandir essa ideia para que possa chegar a mais bairros e municípios.


Crise do Metanol


Uma crise se instalou no país, principalmente em São Paulo. Bebidas destiladas como uísque, Vodka e Gin estão sendo adulteradas, e o cuidado passa a ser muito maior para os bares. O metanol vem fazendo vítimas, destruindo famílias e sonhos, tornando-se um risco real para comércios e bares das periferias de São Paulo, assim como o Bar da Carol.

"Deu uma diminuída, principalmente na venda de destilados. O pessoal preferiu mais a cerveja. O pessoal ficou com bastante medo", disse a Carol sobre a venda de destilados no bar em meio à crise do metanol.

O Governo de São Paulo, em parceria com a Senacon, criou um núcleo de comunicação para informações rápidas sobre a crise.

No âmbito financeiro, já é possível sentir os efeitos da crise. Só no Estado de São Paulo, segundo o InfoMoney, caiu em 31% a venda de bebidas destiladas entre as semanas dos dias 28/09 a 04/10. 54% dos consumidores de bebidas diminuíram o consumo e 11% deixaram de beber por conta dessa crise. No Bar da Carol, a reação de seus clientes não foi diferente.

"O pessoal tá com bastante medo. O pessoal não está saindo tanto. Com certeza deu uma diminuída no movimento. Espero que se resolva o quanto antes isso, pra voltar como era antes." Completou Carol.

Segundo o Ministério da Saúde, até aqui foram registradas 148 notificações, sendo 41 casos confirmados, 107 em investigação e 469 descartados. Dos 41 casos confirmados, apenas 8 não aconteceram em São Paulo. Ou seja, foram 33 casos apenas dentro do estado, o que faz crescer a atenção e os cuidados. Até aqui, infelizmente, 8 óbitos foram confirmados, sendo 6 em São Paulo e 2 em Pernambuco. Dez casos ainda estão sob investigação.

As mortes são causadas por intoxicação, por conta dos efeitos do metanol após o consumo de bebidas. Casos de intoxicação sempre aconteceram, eram cerca de 20 por ano, segundo informa o Serviço de Informações do Brasil. Com a crise do metanol, esses números duplicaram.

O bar funciona em horários propícios para o lazer de quem enfrenta a correria diária. 

Segue os dias e os horários de funcionamento: 


Segunda - feira: 15:00 às 00:00

Terça-feira: 15:00 às 00

Quarta-feira: 15:00 às 00:00 

Quinta-feira: 15:00 às 00:00

Sexta-feira: 15:00 às 00:00

Sábado: 15:00 às 02:00 

Domingo: 15:00 às 02:00